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28 de março de 2009

Tânger, Marrocos

Gostei muito desta descrição de Tânger feita por Constantin von Barloewen no prólogo da obra “O livro dos Saberes”, que estou traduzindo do francês ao português e que estará nas livrarias brasileiras no final de 2009.

Tânger, com suas ruas brancas, seu calcário abrasador e cintilante; e à luz da manhã esta faixa de mar azul e fluída, os minaretes que parecem uma cabeça aparelhada, muito acima da cidade baixa com suas galerias frescas e arqueadas e suas colunas que impõem respeito.
O anoitecer ainda dá os primeiros passos nessa faixa estreita e fina onde o ar entra em contato com a água, um primeiro toque de cor, quase uma intuição, um vapor ansioso que logo é perturbado outra vez pelo escurecimento do céu. Em nossa curta vida o tempo parece ser uma longa espera.
E de repente o olhar abraça uma silhueta infinitamente delicada, pintada em cores brumosas que se mostra como um longínquo cenário. Crianças brincam por todo lado. A juventude vive da juventude; a velhice, do tempo. Envelhecemos diante de ondas ontem e de ondas amanhã.
Subitamente – era a manobra de um navio ou um raio do sol poente que acendia uma chama? – brilha como uma opala de um branco leitoso, cintilante de todas as cores do anoitecer, uma mancha luminosa sobre a curvatura azul do céu, a cidade luminosa, Tânger, um branco vivo, uma claridade monstruosa, como um diamante penetrado pelo reflexo candente dos discos que expelem em mil pedaços os últimos raios do sol.
O ser humano parece girar, ele gira até que para em um ponto no qual não espera nada, mas ainda assim espera.
Ao redor as cores se mesclam para formar tonalidades mais escuras, as colinas enegrecem, o mar chega a um cinza crepuscular, o sol abrasador se torna vermelho-alaranjado e empalidece em direção ao alto do céu, o ambiente tem enfim aquela distância e aquela incerteza do anoitecer que as palavras nem sempre podem explicar. O ser humano parece experimentar o vazio, como se estivesse quase nos domínios de Deus. Quantas vidas existem em uma vida, para uma vida só! Uma flor morre na mão, fazendo nascer uma estrela. O eterno é o resultado da vida eterna.”

28 de março de 2009

Sobre a dignidade do ser humano

Trecho de entrevista de Constantin von Barloewen com Adônis, poeta sírio.

Constantin von Barloewen: Os pintores mexicanos Diego Rivera ou Rufino Tamayo costumavam dizer que um grande homem continua sendo grande mesmo quando está na sarjeta. A dignidade do homem, que é sua essência, parece haver sido possível nas culturas tradicionais asiáticas, africanas e latino-americanas, enquanto que na tradição calvinista da América do Norte esta concepção parece impensável.

Adônis (poeta sírio): A dignidade é a própria essência do ser humano, mas este ser humano infelizmente é oprimido, é humilhado, está sempre em crise, prisioneiro, é caçado, é emigrante. O sofrimento do ser humano é imenso em nosso mundo e isto vai contra sua dignidade. Tentam tratar o ser humano como se trata uma coisa, mas isto é perigoso. Medir a dignidade do homem por sua riqueza financeira é um ato absurdo.

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