Arquivo para ‘Textos traduzidos’

29 de abril de 2009

América Latina e o século XXI

Von Barloewen: Que papel a América Latina poderia ter no século XXI? Que contribuição específica ela poderia dar à civilização mundial?

 

Carlos Fuentes: No futuro a principal contribuição da América Latina será definida pelo fato de que o século XXI será uma era de grandes migrações, um século da miscigenação, ou não será possível. Durante cinco séculos o Ocidente avançou em direção ao sul e ao leste e impôs seus valores sem pedir autorização a ninguém. Agora são os povos do sul e do leste que vão ao norte e tampouco pedem autorização.

As riquezas do mundo estão divididas de uma forma extremamente desequilibrada. Precisamos, portanto, de um elemento de compensação: a possibilidade, para os povos dos países pobres, de migrar aos países ricos. Este problema poderia ser resolvido em boa parte se o Ocidente, o hemisfério Norte, demonstrasse uma maior compreensão para com os países em desenvolvimento, apagando suas dívidas e ajudando-os a prosperar. A Unesco também calculou que com um valor de no máximo onze bilhões de dólares seria possível financiar as necessidades fundamentais do terceiro mundo na área da educação. Onze bilhões de dólares é a soma que os Estados Unidos gastam por ano em produtos de beleza. Treze bilhões de dólares poderiam satisfazer as necessidades fundamentais do terceiro mundo na área da saúde. Isto corresponde à soma que a Europa gasta por ano com seus sorvetes. Se a economia global se impuser universalmente, será um sistema no qual já não circularão somente as mercadorias, mas também os povos em migração. A América Latina será uma das principais fontes de migrantes em direção ao hemisfério norte, especialmente aos Estados Unidos, onde já existe uma população hispanófona de aproximadamente trinta milhões de pessoas. Dentro de alguns anos o espanhol será a segunda língua dos Estados Unidos. Aliás, para o conjunto do mundo ocidental, hoje ela já é a segunda língua. Os hispanofalantes serão, então, a maior minoria, mais numerosa que a minoria negra. É por esta razão que os movimentos demográficos terão um papel fundamental no futuro da América Latina. É claro que o migrante não leva somente sua força de trabalho, seus músculos e seu suor; leva também sua cultura e sua língua, sua religião e sua concepção dos valores da família e da sociedade. Além disso, o afluxo de migrantes contribui também com o valor da miscigenação, da mescla de etnias, uma atitude hostil ao racismo. Os migrantes e a visão multiétnica do mundo com certeza enfrentarão uma forte resistência. A América Latina caminha certamente em direção a um mundo mais são e mais rico, mas também um mundo mais conflituoso.

29 de abril de 2009

Carlos Fuentes

Pequena biografia extraída do Livro dos Saberes de Von Barloewen que estou traduzindo atualmente ao português:

“Carlos Fuentes, um mestre da literatura de todo gênero, nasceu no Panamá em 1928. Filho de diplomata, passou sua infância na América do Norte, na América do Sul e na Europa. Foi na Universidade Nacional Autônoma do México que fez seus estudos e obteve um diploma em direito. Depois continua seus estudos no Institut des hautes études de Genebra (1950-1952). Logo assume funções oficiais: membro da delegação mexicana na Organização Internacional do Trabalho, responsável pela imprensa do Ministério de Relações Exteriores e embaixador do México na França (entre 1974 e 1977). Funda diversas revistas, como a Revista Mexicana de Literatura (1955), com Octavio Paz, e mais tarde a editora Siglo XXI (1965). Professor em diversas universidades dos Estados Unidos até 1982, principalmente em Harvard, vive hoje na Cidade do México e em Londres. Os primeiros escritos publicados de Fuentes foram novelas: Los días enmascarados (1954). Seu primeiro romance, La región más transparente (1958), um sumário de acusação contra a sociedade mexicana, já demonstrava seu interesse pela história e pela identidade de seu país. Outros romances se seguiram, como La muerte de Artemio Cruz (1962), que lhe deu fama internacional, Cantar de ciegos (1964), Cambio de piel (1967), Terra nostra (1975), La cabeza de la hidra (1978) e Gringo Viejo (1985).
Carlos Fuentes também escreveu para o teatro, El tuerto es rey (1970), e para o cinema – foi o roteirista de Buñuel para La chasse à l’homme (A caça ao homem), de um romance de Alejo Carpentier. É o autor de diversos ensaios críticos, como Casa con dos puertas (1971) ou Cervantes o la crítica de la lectura (1976), e de ensaios políticos (Tiempo mexicano, 1972). Em 1977 seu romance Terra nostra obteve o prêmio Rómulo Gallegos, a maior distinção literária da América Latina. Em 1987 Carlos Fuentes recebeu o prêmio Cervantes pelo conjunto de sua obra e em 2005 o Grande Prêmio Metropolis Bleu. Sua última obra publicada na França é A cadeira da águia (2005).”

28 de março de 2009

Tânger, Marrocos

Gostei muito desta descrição de Tânger feita por Constantin von Barloewen no prólogo da obra “O livro dos Saberes”, que estou traduzindo do francês ao português e que estará nas livrarias brasileiras no final de 2009.

Tânger, com suas ruas brancas, seu calcário abrasador e cintilante; e à luz da manhã esta faixa de mar azul e fluída, os minaretes que parecem uma cabeça aparelhada, muito acima da cidade baixa com suas galerias frescas e arqueadas e suas colunas que impõem respeito.
O anoitecer ainda dá os primeiros passos nessa faixa estreita e fina onde o ar entra em contato com a água, um primeiro toque de cor, quase uma intuição, um vapor ansioso que logo é perturbado outra vez pelo escurecimento do céu. Em nossa curta vida o tempo parece ser uma longa espera.
E de repente o olhar abraça uma silhueta infinitamente delicada, pintada em cores brumosas que se mostra como um longínquo cenário. Crianças brincam por todo lado. A juventude vive da juventude; a velhice, do tempo. Envelhecemos diante de ondas ontem e de ondas amanhã.
Subitamente – era a manobra de um navio ou um raio do sol poente que acendia uma chama? – brilha como uma opala de um branco leitoso, cintilante de todas as cores do anoitecer, uma mancha luminosa sobre a curvatura azul do céu, a cidade luminosa, Tânger, um branco vivo, uma claridade monstruosa, como um diamante penetrado pelo reflexo candente dos discos que expelem em mil pedaços os últimos raios do sol.
O ser humano parece girar, ele gira até que para em um ponto no qual não espera nada, mas ainda assim espera.
Ao redor as cores se mesclam para formar tonalidades mais escuras, as colinas enegrecem, o mar chega a um cinza crepuscular, o sol abrasador se torna vermelho-alaranjado e empalidece em direção ao alto do céu, o ambiente tem enfim aquela distância e aquela incerteza do anoitecer que as palavras nem sempre podem explicar. O ser humano parece experimentar o vazio, como se estivesse quase nos domínios de Deus. Quantas vidas existem em uma vida, para uma vida só! Uma flor morre na mão, fazendo nascer uma estrela. O eterno é o resultado da vida eterna.”

28 de março de 2009

Pequena biografia de Adônis, poeta sírio.

Adônis (pseudônimo de Ali Ahmed Said Esber) é considerado hoje como o maior poeta árabe vivo. Seu pseudônimo refere-se ao deus de origem fenícia, símbolo da renovação cíclica. Nascido em 1930 em um vilarejo nas montanhas do norte da Síria, Adônis recebeu sua formação em poesia do pai, um camponês instruído. Em 1947 ele vai ao vilarejo vizinho onde se encontra com o presidente sírio Choukri al-Kouwatli. Adônis, então com doze anos, declama sua prosa e seduz a multidão. O presidente decide lhe conceder uma bolsa e ele parte para o liceu francês de Tartous. É diplomado pela universidade síria de Damasco em 1954 (licenciatura em filosofia).

Publica seus primeiros poemas aos dezessete anos. Sua coletânea Cantos de Mihyar o Damasceno é lançada em 1961 e simboliza um dos atos fundadores da poesia árabe moderna. A tradução ao francês, que aparecerá em 1983, marcará para Adônis o início de seu reconhecimento mundial. Em 1955 é mantido preso por seis meses por pertencer ao Partido Popular Sírio, um partido que defendia a expansão da Síria sobre a quase totalidade do oriente médio. Após sua libertação em 1956, ele foge a Beirute, onde funda em 1957, com o poeta sírio-libanês Youssouf al-Khal, a revista Chi’r (Poesia), que se propõe a libertar a poesia árabe de seus grilhões e abri-la às influências estrangeiras.

Em 1968 funda a revista Mawâkif (Posições), que espera constituir-se um espaço de liberdade e ao mesmo um laboratório de renovação “desestruturante” da poesia – ela é imediatamente proibida no mundo árabe. É neste momento que ele traduz Baudelaire, Henri Michaux e Saint-John Perse ao árabe e Aboul Ala el-Maari ao francês. Adônis procura a renovação da poesia árabe contemporânea partindo de seu passado glorioso, mas também observando a riqueza da poesia ocidental. Em 1980, logo após a guerra civil libanesa, ele foge do Líbano e termina por se refugiar em Paris em 1985.

Hoje a poesia de Adônis, feita de múltiplos ecos, leva sua voz mais além das fronteiras do espaço e do tempo. Entre suas obras traduzidas ao francês, citamos: Chants de Mihyar le Damascène (Poésie-Gallimard, 1983); Lê temps des villes (Mercure de France, 1990); Mémoire du vent (Poèmes 1957-1990) (Poésie-Gallimard, 1991); La prière et l’Epée : essai sur la culture arabe (Mercure de France, 1993); Tombeau pour New York (Sindbad-Actes Sud, 1999).

Possíveis traduções dos títulos ao português: Cantos de Mihyar o Damasceno, O tempo das cidades, Memória do vento, A oração e a espada: ensaio sobre a cultura árabe,
Tumba para Nova Iorque.

28 de março de 2009

Sobre a dignidade do ser humano

Trecho de entrevista de Constantin von Barloewen com Adônis, poeta sírio.

Constantin von Barloewen: Os pintores mexicanos Diego Rivera ou Rufino Tamayo costumavam dizer que um grande homem continua sendo grande mesmo quando está na sarjeta. A dignidade do homem, que é sua essência, parece haver sido possível nas culturas tradicionais asiáticas, africanas e latino-americanas, enquanto que na tradição calvinista da América do Norte esta concepção parece impensável.

Adônis (poeta sírio): A dignidade é a própria essência do ser humano, mas este ser humano infelizmente é oprimido, é humilhado, está sempre em crise, prisioneiro, é caçado, é emigrante. O sofrimento do ser humano é imenso em nosso mundo e isto vai contra sua dignidade. Tentam tratar o ser humano como se trata uma coisa, mas isto é perigoso. Medir a dignidade do homem por sua riqueza financeira é um ato absurdo.

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