Von Barloewen: Que papel a América Latina poderia ter no século XXI? Que contribuição específica ela poderia dar à civilização mundial?
Carlos Fuentes: No futuro a principal contribuição da América Latina será definida pelo fato de que o século XXI será uma era de grandes migrações, um século da miscigenação, ou não será possível. Durante cinco séculos o Ocidente avançou em direção ao sul e ao leste e impôs seus valores sem pedir autorização a ninguém. Agora são os povos do sul e do leste que vão ao norte e tampouco pedem autorização.
As riquezas do mundo estão divididas de uma forma extremamente desequilibrada. Precisamos, portanto, de um elemento de compensação: a possibilidade, para os povos dos países pobres, de migrar aos países ricos. Este problema poderia ser resolvido em boa parte se o Ocidente, o hemisfério Norte, demonstrasse uma maior compreensão para com os países em desenvolvimento, apagando suas dívidas e ajudando-os a prosperar. A Unesco também calculou que com um valor de no máximo onze bilhões de dólares seria possível financiar as necessidades fundamentais do terceiro mundo na área da educação. Onze bilhões de dólares é a soma que os Estados Unidos gastam por ano em produtos de beleza. Treze bilhões de dólares poderiam satisfazer as necessidades fundamentais do terceiro mundo na área da saúde. Isto corresponde à soma que a Europa gasta por ano com seus sorvetes. Se a economia global se impuser universalmente, será um sistema no qual já não circularão somente as mercadorias, mas também os povos em migração. A América Latina será uma das principais fontes de migrantes em direção ao hemisfério norte, especialmente aos Estados Unidos, onde já existe uma população hispanófona de aproximadamente trinta milhões de pessoas. Dentro de alguns anos o espanhol será a segunda língua dos Estados Unidos. Aliás, para o conjunto do mundo ocidental, hoje ela já é a segunda língua. Os hispanofalantes serão, então, a maior minoria, mais numerosa que a minoria negra. É por esta razão que os movimentos demográficos terão um papel fundamental no futuro da América Latina. É claro que o migrante não leva somente sua força de trabalho, seus músculos e seu suor; leva também sua cultura e sua língua, sua religião e sua concepção dos valores da família e da sociedade. Além disso, o afluxo de migrantes contribui também com o valor da miscigenação, da mescla de etnias, uma atitude hostil ao racismo. Os migrantes e a visão multiétnica do mundo com certeza enfrentarão uma forte resistência. A América Latina caminha certamente em direção a um mundo mais são e mais rico, mas também um mundo mais conflituoso.